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quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Do Cante nosso @ 14:27

Hoje é o dia do Cante. Da nossa pele que é de cortiça, como a dos sobreiros. Das paredes brancas das casas caiadas. Do alcatrão dos caminhos sob o sol castigador de Julho. Das planícies imensas que refletem as Estações. Verdes, floridas, amarelas e secas. O verde seco e o castanho das azinheiras. A imensa solidão dos campos, abandonados pelos latifundiários, que haviam de ser mais bonitos se fossem das gentes. Esses campos onde somos inteiros e eternamente desta terra. Da frescura inexplicável das casas. Do frio imperdoável de Janeiro a doer nos ossos. Da calmaria da vida, que já que é só uma, que seja vivida aqui. Da solidez dos sobreiros que esperam pacientes e sozinhos a próxima despela. Do alentejano taciturno que carrega a profundidade da vida na voz. Do passado recente de fome, que oxalá ninguém o esqueça. Do sol a sol com os pés descalços. A fome, a miséria, a pancada. Da reforma agrária como soberba alegria. Da liberdade. Do povo com passado de luta. Dos homens e das mulheres que se confundem com a paisagem. Da escassa água. Do silêncio dentro do Cante. E essa secura, dos homens e animais e árvores, que esconde os segredos desta terra.


Não pode entender o Alentejo quem nunca sentiu a sua história a correr-lhe nas veias, como seiva que abre caminho com a mesma brutalidade da chegada do Verão. Uma bonita e imensa tristeza que é a essência do que somos. E que vive eternamente no Cante desta gente.